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Notícias de lá
[Coluna por Christiana Fausto – Brasil]

Na ressaca das festas, e haja festas – amigo secreto da empresa, amigo secreto da família, amigo secreto dos amigos, ceia de Natal, nada funciona até o Ano Novo e aí... mais festa, começamos 2004, a maioria com bem menos esperança do que começou 2003, quando a posse de Lula parecia ser o milagre para resolver todos os problemas. Todos mesmo, até os mais pessoais.

O grande argumento de Lula, para responder a qualquer crítica deste primeiro ano, é que pegou a “casa” muito bagunçada e que este foi um período de “arrumação”. Agora sim, é que ele vai começar a governar de verdade. Um ano de faxina, que conseguiu manter a inflação sob controle, diminuir o risco Brasil, melhorar a imagem do país no exterior e emplacar o “Fome Zero”. É aquela história: quem tem fome, tem pressa, como diz o slogan, mas as causas estruturais da fome precisam ser solucionadas urgentemente. Como disse Popó, o pugilista baiano que conseguiu o cinturão de campeão mundial de peso leve, dia 4 nos EUA, “o Brasil precisa de comida, mas quem traz comida é a educação”, tentando dar seu recado a Lula.

Claro, de educação, de emprego, de moradia decente, de saneamento, de saúde, de tanta coisa que fica difícil eleger prioridades. Mas tem que atacar todas as frentes. Com uma boa educação pública do ensino fundamental à universidade, forma-se cidadãos de verdade. Com um bom programa de construção civil, consegue-se empregar muita gente e ampliar a oferta de habitação. Com um bom programa de saneamento, emprega-se muita gente e evita-se um monte de doenças. Estas pessoas empregadas recebem salários e compram comida, não parece simples? Já cantava o eterno Luiz Gonzaga: “Seu doutor uma esmola, a um homem que é são, ou lhe mata de vergonha ou vicia o cidadão”. Neste momento emergencial, é claro que é preciso ser assistencialista, mas cuidado pra isso não virar política de governo.

A boa notícia é que o “Projeto Rondon”, idéia da ditadura, na época com outros propósitos, está de volta, levando estudantes de Universidades públicas para os mais longínquos territórios do país, onde aprenderão (e muito) com a realidade e levarão um pouco do que aprenderam nas escolas. Já estava mais do que na hora das universidades cumprirem o seu papel social e pararem de ficar olhando para o próprio umbigo, com acadêmicas discussões imbecilizantes que não interessam a ninguém, nem a eles mesmos. Imaginem o que custa manter um aluno numa universidade pública por 4, 5 anos, e quando ele sai dali, custeado pelo dinheiro público, abre seu escritoriozinho, seu consultório, ou o que for, e vai ganhar seu suatento, sem dar nada em troca pelo apoio que recebeu. Com um agravante: quem estuda nas universidades públicas, hoje, paradoxo dos paradoxos, são os jovens da classe média para cima, porque a concorrência é enorme e só os muito bem preparados podem competir.

Um coitado que sempre estudou em escola pública já nem se matricula, vai direto para as universidades particulares, que é o que não falta por aqui hoje em dia. Em cada esquina tem uma. Qualidade? E isso é coisa que preocupa? Dá diploma, então está bom. Aí recorrem os estudantes para os programas de financiamento, se viram para pagar os preços astronômicos que estas faculdades particulares cobram. E ninguém acha isso estranho …
Bom, vamos aguardar o início do governo Lula, então, depois da casa “arrumada”. Nesta faxina, foi jogada na lixeira a senadora Heloísa Helena e mais três deputados federais, expulsos do partido por exigirem coerência política do governo, que não escolhe aliados para aprovar seus projetos, incluído aí a reforma da Previdência, já comentada aqui. ACM tem voto? Então serve. Sarney idem, e por aí vai... Critério, discernimento, lisura política são artigos extintos por aqui. A proeza de extinguí-los não é privilégio do PT, nem de Lula, lógico, isso é o vírus que ataca indiscriminadamente qualquer poder e ainda não existe nenhum antivírus no planeta, infelizmente! Resta-nos seguir o conselho do filósofo francês Pierre Lévy, que afirma: “Os políticos têm a importância que a gente dá a eles”.

O juiz Lafredo Lisboa, da Justiça Federal do Rio, depois de um eficiente e sigiloso trabalho que durou exatos 10 meses e que incluiu informações em bancos suíços (depois que a Suíça levantou a lebre, vale dizer), quebra de sigilo bancário de muita gente e análise de um avassalador número de provas, mandou para a cadeia 24 réus. Ao investigar o “escândalo do propinoduto”, como o caso ficou conhecido, o juiz comprovou a remessa de US$ 33,4 milhões por parte de fiscais estaduais, auditores da Receita e empresários. Comentamos aqui este desvio de dinheiro quando ainda não tinha este brasileiríssimo nome e os acusados ainda não tinham nomes, nem penas. Os réus, todos endinheirados, já começaram a recorrer da sentença. Aí é que o “bicho” pega, como se diz por aqui. Rico, no Brasil, na cadeia? Conta outra! Agora já começam a falar no “Propinoduto 2”. Vem mais roubalheira por aí. É mole?

O maior caso de corrupção da história do Judiciário brasileiro, descoberto pela chamada “Operação Anaconda”, também demonstrou eficiência da Polícia Federal, neste caso a partir de uma denúncia do Ministério Público Federal, e aponta o juiz Rocha Mattos como mentor de todo o esquema, do qual são também membros os irmãos Casem e Ali Mazloum. No apartamento da ex-mulher de Rocha Matos foram encontrados 550 mil dólares em dinheiro e dois quilos de ouro. O esquema era o seguinte: sob liminar, mandar soltar criminosos condenados em troca de dinheiro, concessão de habeas-corpus, ou seja, mercantilização da justiça, além de envolvimento com doleiros, formação de quadrilha, desvio de dinheiro para o exterior, falsidade ideológica, peculato e prevaricação. Para esta operação foram monitoradas 181 linhas telefônicas durante mais de um ano. Até agora 11 suspeitos presos, inclusive o juiz Rocha Matos e sua ex-mulher.

Fofoca: Lula está fumando escondido. Foi flagrado por um fotógrafo dando umas baforadas numa cigarrilha holandesa segurada por um secretário. Discute-se aqui o que é o pior exemplo, diante do massacre a que os fumantes estão submetidos hoje em todo o planeta: fumar em público ou fumar escondido? A hipocrisia é bem pior, segundo enquetes que rolaram na net. Só lhe falta dizer igual a Bill Clinton: “fumei, mas não traguei” (no caso deste, maconha).

Quem foi embora, desta vez pra nunca mais, foi o grande e (infelizmente) pouco conhecido poeta baiano Affonso Manta. Que bom que pôde deixar sua vasta e magnífica obra, através da qual poderemos sempre nos encontrar com ele. Seus amigos pretendem fazer uma publicação de sua obra completa, mais do que merecido! Vão aqui uns versinhos pra vocês conhecerem a figura. Mais Manta no site Jornal de Poesia: www.secrel.com.br/jpoesia/poesia/html (mais de 3.000 poetas em língua portuguesa).

Fazer da brisa um traje sem medidas
E do arco-íris, fazer um tobogã
Amar as mínimas coisas da vida
E ter no olhar o brilho do amanhã.

Até a próxima!
christfausto@ibest.com.br.


 

Fevereiro 2004
 
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Mora na Europa?
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